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28 de novembro
Publicado em 13/01/2026
Por que cuidar da mente precisa estar no centro das prioridades desde o início do ano
O início do ano costuma ser marcado por metas, recomeços e expectativas. Mas, junto com esse movimento, também surgem pressões, cobranças internas e sinais de esgotamento emocional que muitas vezes passam despercebidos. É nesse contexto que o Janeiro Branco, movimento nacional de conscientização sobre saúde mental, propõe uma reflexão necessária: cuidar da mente deve ser uma prioridade coletiva.
Para aprofundar esse tema, conversamos com a psicóloga Fábia Cristina de Aragão Fernandes, coordenadora do Núcleo Acolher, que esclarece o que é o Janeiro Branco, por que ainda existe tabu em torno da saúde mental e como emoções, corpo e relações estão profundamente conectados.
Na entrevista, a especialista também fala sobre sinais de alerta, o impacto do silêncio emocional e a importância da escuta, do diálogo, da cultura e da convivência social no cuidado emocional.
O que é o janeiro Branco e por que ele é tão importante para falar de saúde mental logo no início do ano?
O Janeiro Branco é um movimento social que convida a sociedade a colocar a saúde mental no centro das prioridades. Criada em 2014 pelo psicólogo Leonardo Abrahão e em 2026, o chamado é simples e urgente: “cuidar da mente precisa ser um compromisso coletivo”.
O início do ano foi escolhido porque janeiro simboliza uma “folha em branco” e é marcado por resoluções e renovação de ciclos, é ideal para repensar hábitos e relações com o cuidado emocional. Ou seja, é uma oportunidade para reescrever histórias e prioridades no início do ano.
Ainda existe resistência ou tabu quando falamos sobre saúde mental? Por quê?
Sim, ainda existe resistência e tabu quando falamos de saúde mental. Isso tem muito a ver com cultura e com medo de julgamento e, muitas vezes, com consequências práticas, principalmente no trabalho. Em muitas famílias, as pessoas são ensinadas a ‘engolir o choro’, a ouvir frases como ‘você tem que ser forte’ ou ‘isso é falta do que fazer’. Essa mentalidade, passada de geração em geração, cria uma associação perigosa: a pessoa entende que sentir, pedir ajuda ou demonstrar vulnerabilidade é fraqueza. Aí ela passa a apenas ‘funcionar’ no automático, empurrando tudo. Até que a mente ou o corpo cobram a conta.
Quais comportamentos do dia a dia podem indicar que alguém não está emocionalmente bem, mesmo aparentando estar “bem”?
Mesmo aparentando estar “bem”, alguém pode não estar emocionalmente bem quando começam a surgir mudanças consistentes no jeito de viver, sentir e se relacionar.
De forma resumida, alguns comportamentos do dia a dia que costumam indicar isso são: perda de prazer (atividades que antes faziam bem deixam de interessar), cansaço persistente (sensação de esgotamento que não melhora com descanso), isolamento (redução do contato social, afastamento afetivo, mais cancelamentos), fuga ou anestesia emocional (uso excessivo de telas, comida, álcool, trabalho ou sono como forma de não sentir ou não pensar) e mudanças de humor (mais irritabilidade, impaciência, choro fácil, reações desproporcionais ou oscilação emocional).
Em geral, o ponto-chave não é um comportamento isolado, mas o conjunto e, principalmente, a percepção de que a pessoa está “funcionando por fora”, mas com um custo emocional alto por dentro.
A frase “rir de tudo é desespero” pode ser interpretada como um alerta emocional. O riso excessivo pode ser um sinal de sofrimento?
A frase “rir de tudo é desespero” pode, sim, ser entendida como um alerta emocional, mas é importante colocar uma nuance, isso é relativo.
O riso, muitas vezes, é um recurso saudável. Algumas pessoas usam o humor para aliviar tensão, relativizar situações difíceis e encontrar leveza; outras riem quando estão nervosas, o chamado riso nervoso, que funciona como uma descarga do corpo para ajudar na regulação emocional. Além disso, o humor pode atuar como mecanismo de defesa, reduzindo momentaneamente a tensão e trazendo uma sensação de controle diante do desconforto.
O sinal de alerta aparece quando o riso se torna a única resposta para praticamente qualquer situação, principalmente em momentos que pediriam presença emocional. Nesse caso, ele pode estar sendo usado para evitar contato com a dor ou camuflar sentimentos como tristeza, medo, vergonha ou insegurança. Vale observar com mais atenção quando, além de rir de tudo, a pessoa evita conversas mais sérias, muda de assunto sempre que algo aprofunda, ou recorre com frequência à autodepreciação (tirar sarro de si o tempo todo), porque isso pode indicar sofrimento por trás da máscara de leveza e uma dificuldade de se permitir vulnerabilidade.
Muitas pessoas usam o humor para esconder a dor. Isso pode trazer consequências a longo prazo?
Sim, pode. Principalmente quando o humor vira o único caminho para lidar com as emoções não só as difíceis, mas até as agradáveis, como se a pessoa não conseguisse se mostrar de forma mais verdadeira.
A questão é quando o humor funciona como evitação emocional: em vez de viver e elaborar a dor, a pessoa ‘empurra’ o sentimento com o riso.
A longo prazo, isso costuma cobrar um preço emocional e também físico, porque o que não é elaborado acaba aparecendo no corpo (como cansaço persistente, insônia, tensão, dores, sintomas gastrointestinais). Também pode dificultar as relações, já que tudo tende a ficar superficial e conversas mais profundas são evitadas. Com o tempo, a própria pessoa perde contato com o que sente, já não sabe exatamente o que a entristece, frustra, magoa ou até o que a alegra e pode ficar presa no papel de “quem está sempre bem”. E, como não se permite sentir ou pedir ajuda, o risco é caminhar para um quadro de exaustão emocional.
Qual o impacto do silêncio emocional na saúde mental?
Vejo dois pontos de vista quanto a essa pergunta.
O silêncio emocional como evitação pode ter um impacto profundo, porque a emoção continua ali, ela só deixa de ser nomeada e acaba sendo empurrada para outras vias, como o corpo, o comportamento e as relações. Isso pode aparecer como cansaço persistente, irritabilidade, insônia, somatizações e dificuldade de intimidade emocional, porque a pessoa vai se afastando de conversas mais verdadeiras e, muitas vezes, de pedir ajuda.
Por outro lado, existe o silêncio consciente: momentos de pausa e presença que ajudam a organizar pensamentos, reduzir a ansiedade e aumentar a percepção das próprias emoções. Quando esse silêncio gera clareza e autocuidado, ele fortalece autoestima, melhora limites e torna a comunicação mais madura porque a pessoa aprende a falar do que sente sem explodir e sem se calar.
Por que é tão difícil, para algumas pessoas, falar sobre sentimentos?
Podem existir várias razões. Em muitos contextos, só é valorizado quem está ‘bem’, então o medo de ser julgado(a) ou rejeitado(a) pesa muito. Também há um componente cultural e familiar: em várias casas não se incentiva a expressão emocional — há repressão e frases que ensinam a engolir o que se sente. Além disso, muita gente não aprendeu a nomear as próprias emoções e, quando já tentou falar e foi invalidado(a), acaba se protegendo pelo silêncio.
Qual a importância da escuta e da empatia no cuidado emocional?
Empatia é uma postura humana de relação e é fundamental para construir relacionamentos significativos, seja em contexto pessoal ou profissional.
A escuta empática é fundamental porque, muitas vezes, o que mais regula uma pessoa em sofrimento é a experiência de ser vista, validada e acolhida sem julgamento. Quando alguém se sente escutado de verdade, a tensão emocional tende a reduzir, a mente organiza melhor os pensamentos e a pessoa consegue ter mais clareza para tomar decisões e impor limites. Essas coisas que, no auge da ansiedade ou da dor, ficam “offline”.
Nem sempre é sobre dar o “conselho/resposta” certa, muitas vezes é sobre estar presente de forma completa.
Como o diálogo pode prevenir adoecimentos emocionais?
O diálogo pode prevenir adoecimentos emocionais porque funciona como uma forma de regulação e organização interna: quando a pessoa consegue falar sobre o que está pesado e é ouvida com respeito, diminui a sensação de isolamento, reduz a tensão acumulada e passa a nomear melhor o que sente, ganhando clareza para decisões e limites. Isso também evita acúmulos e mal-entendidos, tornando as relações mais leves e mais honestas, com menos ressentimento e mais alinhamento de expectativas. Ao perceber sinais mais cedo e conseguir pedir apoio, a pessoa tende a agir antes que o sofrimento se prolongue em silêncio e evolua para somatizações, exaustão ou crises.
Como cultura, lazer e convivência social ajudam na expressão emocional?
Cultura, lazer e convivência social ajudam na expressão emocional porque oferecem linguagens e espaços seguros para sentir e comunicar o que, muitas vezes, a pessoa não consegue colocar em palavras diretamente: uma música, um filme, um livro ou uma atividade artística podem “traduzir” emoções, ampliar o vocabulário emocional e facilitar o reconhecimento do que se está vivendo.
O lazer também tem um papel importante: atua como regulador do estresse, promovendo descanso mental, prazer e recuperação emocional, o que protege contra sobrecarga e esgotamento. Já a convivência social, quando é segura, funciona como apoio: conversar, dar risada, ser acolhido e sentir pertencimento traz validação, organiza as emoções e permite que os sentimentos circulem não apenas em momentos de crise, fortalecendo vínculos, autoestima e a capacidade de se expressar com mais clareza e autenticidade.
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